O eco podre dos laranjais

Depois de tantas vezes assistirmos ao discurso machista de que as mulheres são culpadas ou induzem à violência de que são vítimas, o Brasil enfrenta agora mais uma onda de discriminação à mulher, na forma da condenação à cota mínima de candidaturas femininas.

A condenação à cota tem sido verbalizada por políticos que pretendem justificar o desvio de recursos do fundo partidário para falsas candidaturas, o chamado “laranjal”. Um dos semeadores do laranjal, presidente do partido do capitão, declarou que talvez o lugar da mulher não seja na política, pois elas não teriam aptidão para tanto. Algo natural, assim como as mulheres, segundo ele, seriam mais aptas ao balé do que os homens.

Para justificar uma ação criminosa, portanto, os políticos brasileiros mergulham o país numa discussão que parece emergir do século 19.

Não é de hoje que os partidos políticos, quase todos, subestimam ou impõem vetos sutis à liderança das mulheres. Assim, o patriarcado perpetua-se nos poderes Legislativo e Executivo.

Na Câmara de São José dos Campos, temos hoje apenas cinco mulheres entre 21 vereadores. No governo Felício, considerando Urbam e Fundhas, são apenas três mulheres em 15 postos de primeiro escalão.

A cota de candidaturas femininas foi o dispositivo constitucional encontrado para fortalecer a presença das mulheres no cenário político. Entra eleição, sai eleição, no entanto, e partidos e lideranças partidárias insistem em manipulá-la.

O que se impõe, num cenário desses, é uma legislação complementar que puna, de forma exemplar, tais picaretagens políticas.

Mas isso é muito difícil quando cabe aos semeadores de laranjais a tarefa de legislar.

São círculos viciosos de um país preso ao passado. Improvável definir medidas mais efetivas de combate à violência contra a mulher, por exemplo, se o agora tão discutido conselho nacional de política criminal tem apenas 1 mulher entre seus 26 membros..