Orai pela Covid, capitão

Caso único no mundo, Bolsonaro deve à pandemia de coronavírus a recuperação da imagem do seu governo.

Até o fim de 2019, o país convivia com uma gestão errática, contaminada pelas atuações desastrosas de ministros e pelas investigações sobre o clã Bolsonaro. Na economia, o posto Ipiranga fracassava.

A partir de março e das decisões da Justiça que preservaram a autonomia de prefeitos e governadores, Bolsonaro dissociou seu governo da obrigação de combater a Covid-19.

Em movimento paralelo, o presidente Cloroquina se apropriou do auxílio emergencial aprovado pelo Congresso (que seria de apenas R$ 200, pela proposta original do governo) e fez pregação religiosa pela salvação dos CPFs (em contraposição às medidas de Saúde Pública).

E foi assim que o capitão ganhou a disputa de narrativas com governadores e prefeitos ao defender a “salvação da economia”. E se tornou o novo pai dos pobres da história política brasileira, com a distribuição do auxílio emergencial para 60 milhões de brasileiros.

A cereja do bolo, por fim, foi defesa intransigente da cloroquina, ivermectina e toda a sorte de placebos contra a Covid-19. Com isso, Bolsonaro fez crer, diariamente, que o Brasil poderia ter sido muito mais eficiente no combate à pandemia.

Na política, a pandemia de Covid-19 reduziu as tensões e abriu caminho para Bolsonaro construir uma nova base de apoio no Congresso, com a ajuda do Centrão. Na economia, o desenvolvimentismo dos militares atropelou Paulo Guedes. No plano social, o presidente descobriu o filão gigantesco de votos do combate emergencial à pobreza.

Com o Renda Brasil e outros programas sociais reinventados a partir da herança petista, Bolsonaro pavimenta agora o caminho para a reeleição. E declara, publicamente, que teve “gestão ímpar” contra a pandemia, no país com o segundo maior número de casos (mais de 4 milhões) e de mortes por Covid-19 no mundo (124.729 mortos até a última quinta-feira).

É surreal. Mas é a triste realidade na terra do Capitão Covid.

A arapuca do Capitão Cloroquina

“Não é aceitável que se tenha esse vazio no Ministério da Saúde. Pode até se dizer: a estratégia é tirar o protagonismo do governo federal, é atribuir a responsabilidade a estados e municípios. Se for essa a intenção, é preciso se fazer alguma coisa. Isso é ruim, é péssimo para a imagem das Forças Armadas. É preciso dizer isso de maneira muito clara: o Exército está se associando a esse genocídio, não é razoável. Não é razoável para o Brasil”. A declaração é do ministro do STF Gilmar Mendes e causou indignação nas Forças Armadas.

Mas analisemos a declaração, frase por frase. Alguém, em sã consciência, julga que não há um vazio no Ministério de Saúde, comandado interinamente por um general que não sabe onde fica a Linha do Equador?

Quem duvida que a estratégia do Capitão Cloroquina foi jogar toda a responsabilidade de combate à pandemia para Estados e municípios?

Quem duvida que isso não foi péssimo para imagem das Forças Armadas, associadas a um governo irresponsável, cruel e incapaz? E, por fim, quem ainda tem dúvidas de que não está em curso uma política de genocídio, com a ausência deliberada de governo especialmente entre os segmentos mais vulneráveis da sociedade?

Em minúcias: tenho um primo bolsonarista, morador do Mato Grosso, que acredita que índio bom é índio morto.

A indiferença do governo diante do avanço da pandemia de Covid-19 nas aldeias indígenas brasileiras é, sim, um comportamento genocida. E satisfaz o desejo secreto de extermínio dos povos indígenas que alimenta uma legião de bolsonaristas ligadas ao agronegócio (ou melhor, ao latifúndio).

O Capitão Cloroquina já foi denunciado ao Tribunal Penal Internacional, em Haia, por crime contra a humanidade na condução da resposta do governo brasileiro à pandemia de coronavírus. Quem se associa a esse desgoverno é, inevitavelmente, co-responsável.

É fato, é inapelável, e não será a tentativa de enquadrar o ministro do STF na Lei de Segurança Nacional, instituída durante a ditadura militar, que irá ajudar a melhorar a imagem das Forças Armadas..

Sob a inspiração de Incitatus

A pandemia avança, a economia afunda e é impossível não falar, neste momento, no Brasil, sobre o doido da cloroquina e sobre seus desmandos e de seus familiares.

E é preciso falar também sobre a maluquice de tantos brasileiros, em exposição frenética à Covid-19 nas ruas e aglomerações, todos eles magnetizados pelas sandices do presidente.

Já dizia Simão Bacamarte, este personagem tão singular de Machado de Assis, em O Alienista: “A loucura era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”

Como já disse, o essencial, na narrativa dos bolsonaros, é desqualificar a verdade. Nas minhas leituras de Foucault, um dos textos que mais me fascinaram foi a análise do comportamento de um criminoso em “Eu Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão”. “O sujeito, preso na armadilha, por seu turno também arma uma: ele se deixa prender de maneira a estabelecer a incerteza dos médicos e dos magistrados, numa espécie de indecidível universal da loucura (…). Tudo é dito, com efeito, para que a prova se volte contra ela mesma.”

Fato: o clã Bolsonaro tem agora, em Queiroz, o seu corrupto de estimação, preso em Bangu 6. Junto com Cabral e Pezão.

Morre por terra, simbolicamente, o último bastião do discurso bolsonarista: “nunca fomos corruptos, nunca estivemos envolvidos em esquemas envolvendo dinheiro público”.

Diz o MP: Flávio, o Zero 1, usava Queiroz para arrecadar grana de funcionários fantasmas da Assembleia. E fantasmas assombravam também o gabinete de Bolsonaro em Brasília.

As provas são fartas e irrefutáveis. Para sujeitos voluntariamente deslocados do eixo da realidade, infelizmente, podem significar coisa alguma.

Queiroz será novamente a pobre vítima da Justiça? O Zero Um voltará a afirmar que jamais poderia desconfiar que o braço direito de seu pai desviava dinheiro de maneira ilegal?

O Twitter do Carluxo nos dirá. Mas o xilindró está irremediavelmente associado à família que hoje rege o destino de 220 milhões de brasileiros..

Mentira como método de governo

Quando escreveu “Eichmann em Jerusalém”, Hannah Arendt se mostrou aterrorizada com a frieza com que o nazista descrevia suas atrocidades, sempre tentando legitimar a narrativa nazista. Mais tarde, Arendt escreveu um texto chamado “Verdade e Política”, para investigar o prejuízo que o poder político é capaz de causar à verdade. Segundo Arendt, para a política, “a verdade tem um caráter despótico”. Por isso, ela “é odiada pelos tiranos, que temem, com razão, a concorrência de uma força coercitiva que não podem monopolizar”.

Arendt reiterou que o “pensamento político é representativo”, ou seja, explora narrativas que buscam a identificação entre representante e representado, não importando tratar-se ou não de mentiras. Além disso, mentiras foram sempre consideradas como instrumentos necessários e legítimos, não apenas na profissão de político ou demagogo, mas também na de homem do estado.

As lições de Arendt são muito importantes para entender os riscos da guerra de narrativas que domina o mundo atual e que muitos chamam de a “era da pós verdade”. A filósofa também nos ajuda a compreender como o Brasil se meteu nesta tremenda sinuca de bico, com um presidente da República que utiliza a mentira como método e dissemina narrativas que desagregam e embrutecem o país.

Bolsonaro e seus filhos não suportam a verdade de uma pandemia que já tirou a vida de mais de 14 mil brasileiros. Por isso, investem em narrativas absurdas, que colocam o Brasil na contramão do planeta e ameaçam transformar o país no epicentro mundial da Covid-19.

Bolsonaro e seus filhos vão além e demonizam todas as instituições e agentes públicos que colocam a prevenção à Covid-19 como prioridade do país. A narrativa em curso transforma prefeitos e governadores em vilões do emprego e patrocinadores da fome. E o governo federal se exime de qualquer responsabilidade pela situação dramática enfrentada por todos os brasileiros. Mentiras, política e crime se misturam há séculos, adverte Harendt. E as piores tragédias da humanidade ocorrem nas sociedades que se tornam tolerantes aos monstros..

Qual é a graça, senhor presidente?

Todo presidente brasileiro tem um pibinho para chamar de seu. E Jair Bolsonaro já tem o primeiro pibinho do currículo, logo no primeiro ano de governo. Um dos maiores problemas do pibinho de Bolsonaro é que ele vem ancorado na frustração da varinha mágica na economia, que seria conduzida pelo “posto Ipiranga” Paulo Guedes. O ministro muito prometeu, falou mais do que deveria e acabou não entregando o que o brasileiro mais queria: o país de volta, de forma consistente, à rota do crescimento com ambiente propício para investimentos, mais empregos e mais renda.

Fiel ao seu estilo, Bolsonaro celebrou o pibinho com piada de mau gosto: chamou um humorista para distribuir bananas aos jornalistas no cercadinho do Planalto. Já o “Posto Ipiranga” continuou com prestígio entre os banqueiros, satisfeitos com os lucros recordes. Assim, aqui e acolá, a claque se satisfez, mas a expectativa de que o país possa avançar em reformas que propiciem à “economia real” um ambiente mais favorável, no entanto, é quase nula.

No campo econômico, a travessia de 2020 será complicada, assim como foi 2019. No campo político, o cenário é ainda mais sombrio.

A convocação de manifestação em defesa do presidente, para este dia 15 de março, intensifica o isolamento ideológico do governo. Bolsonaro só pensa na reeleição e sua família aposta todas as fichas na radicalização do cenário político como ferramenta para retroalimentar a milícia virtual e manter o “capitão” no páreo por um novo mandato.

É do jogo. Mas é também do jogo que os ocupantes de cargos públicos respondam por crime de responsabilidade quando colocam em xeque as instituições democráticas. Haverá alguém no Judiciário ou no Congresso com disposição de fazer valer esta regra e enfrentar a fúria das milícias?

A cada lance de radicalização de Bolsonaro, seus eleitores fiéis estufam o peito e renovam seus votos de confiança no “capitão”. Não há nada que sinalize limite para a distribuição de veneno pelas redes sociais, o que pode contaminar, inclusive, a disputa eleitoral nos municípios, este ano. Na economia e na política, portanto, temos que nos preparar para o pior..